Donkey Kong Racing: o game de corrida que terminou cancelado

Rare. Este nome causa nostalgia em quem jogou videogames na década de 90. O estúdio inglês teve acordo de exclusividade com a Nintendo até meados de 2002, quando desenvolveu obras-primas como Donkey Kong Country, Banjo-Kazooie, GoldenEye 007 e Star Fox 64. Após a empresa ser vendida para a Microsoft, o brilho se perdeu: muitos funcionários debandaram, assim como as ideias inovadoras da geração Nintendo 64.

Um dos projetos que a Rare mais se empenhava, no início dos anos 2000, era Donkey Kong Racing. Exclusivo para GameCube, seria o sucessor de Diddy Kong Racing, mas dessa vez com um diferencial: saem os veículos e entram avestruzes, tubarões e peixes. Em florestas ou em rios e oceanos, o jogo prometia trazer um modo multiplayer tão divertido quanto o de seu antecessor. O projeto, no entanto, foi cancelado. Veja mais detalhes sobre o game abaixo, em nossa coluna No Limbo.


Estreando no GameCube

Em meados de 2000, a Rare tinha sete projetos para a (então) nova plataforma da Nintendo, o GameCube. Um deles prometia ser o mais divertido: um sucessor para Diddy Kong Racing, sucesso de crítica e vendas no N64. A iniciativa ganhou a validação da Nintendo para seguir adiante e foi apresentado na E3 2001 com um trailer. A previsão de lançamento era o ano seguinte.

Em entrevista ao site Nintendo Life, o então designer líder da Rare, Lee Musgrave, disse que eles não estavam criando mais um game de corrida comum:

A ideia por trás do jogo era que o jogador não ficaria limitado a um animal. Você poderia alternar entre espécies de tamanhos diferentes durante o percurso. Criaturas maiores podiam destruir obstáculos, enquanto animais menores eram controlados mais facilmente.

Deixando o gorila de lado

A Nintendo estave, no início confiante no projeto, a ponto de divulgá-lo na caixa do GameCube

No início, a Nintendo estava confiante no projeto, a ponto de divulgá-lo na caixa do GameCube

Nem tudo era alegria. Em meados de 2001, a Rare procurava desesperadamente por uma grande empresa para comprar os 51% restantes da mesma, pensando que isso poderia fazê-la alçar voos mais altos. A Nintendo queria manter sua exclusividade e estava na briga, assim como a Activision (que permitiria aos ingleses desenvolver projetos multi-plataforma, um sonho antigo) e a “novata” nos consoles – porém cheia de dinheiro – Microsoft.

As incertezas da aquisição poderiam comprometer as atividades em andamento. Títulos como Donkey Kong Racing, que usavam propriedades intelectuais da Nintendo, teriam que ser descartados caso o comprador não fosse a gigante japonesa. No final de 2001, a Rare enviou um cartão de Natal a algumas personalidades da indústria, com uma árvore natalina e três consoles em sua base: GameCube, PlayStation 2 e Xbox. Estava evidente que os irmãos Stamper, fundadores do estúdio, queriam a Activision. Em 20 de setembro de 2002, a novela teve um fim: a Microsoft ofereceu um valor muito superior aos dos concorrentes, US$ 375 milhões, deixando a Rare sem opções, e adquirindo os disputados 51% de participação.

Um GTA no meio da selva

O gorila, que era o queridinho da Rare, teve que ser deixado pra trás

O gorila, que era o queridinho da Rare, teve que ser deixado pra trás

A aquisição mexeu com todo o mercado. A Nintendo já sabia que as movimentações da sua então parceira eram intensas e que poderia perder a batalha. Pensando nisso, na E3 de 2002 o único projeto dos ingleses a ser apresentado era o mais próximo da conclusão: Star Fox Adventures, que viu a luz do dia. Após a venda, os desenvolvedores de DK Racing ficaram perdidos: o que fazer com o projeto? A A decisão tomada foi deixar Donkey Kong e sua turma de fora, por questões óbvias de propriedade intelectual, e trazer de volta o pouco conhecido Sabreman, de uma franquia do mesmo nome para o Commodore 64 e MSX.

No entanto, a mecânica divertida de corrida não funcionaria mais sem o mascote da Nintendo. Foi preciso retrabalhar o jogo do zero e, de acordo com Musgrave, o projeto foi migrado para o Xbox e seguiu em uma direção completamente diferente da original:

Em 18 meses, mudamos de um game de corrida para algo em mundo aberto, com recursos parecidos com Tamagotchi, onde cuidar do seu animal era o ponto principal. Havia influência de GTA 3, que estava chamando a atenção de todo mundo naquele momento.

Um vídeo (veja abaixo) mostrou como seria o novo projeto, entitulado Sabreman Stampede. A ideia ambiciosa de exploração em mundo aberto fez o time demorar mais do que o previsto, até porque era preciso construir engines para plataformas com os quais os desenvolvedores não estavam habituados. Demorando demais, foi preciso mover os trabalhos para o Xbox 360, quando a empresa já começava a achar que o resultado final não valeria a pena:

Coisas como mudar de plataformas e entrar em uma nova geração de hardware tornaram nossa missão mais difícil. Tínhamos que esperar, muitas vezes, por novas versões de firmware, enquanto uma série de outros obstáculos nos atrapalharam.

Com o time quase triplicando de tamanho e quase nenhum progresso, Sabreman Stampede foi cancelado.

Futuro?

O vídeo acima mostra o resultado final da transformação de Donkey Kong Racing em Sabreman Stampede. Do lado da Rare, alguns elementos teriam sido aproveitados em Banjo-Kazooie: Nuts & Bolts, para Xbox 360. Já do lado da Nintendo, ficou uma lacuna enorme no GameCube, que o estúdio nipônico Paon tentou preencher com o terrível Donkey Kong: Barrel Blast. Este foi migrado para o Wii, devido aos atrasos, e teve péssimas avaliações pela crítica. Desde então, não sabemos o que é um game de corrida com o mascote.

Rumores de 2014 indicaram que Diddy Kong Racing 2 estaria em desenvolvimento para o Wii U e 3DS, sendo a versão de console feita pela conceituada Retro Games, que assumiu os jogos do gorila. Eu, particularmente, acredito nisso. E acho que o lançamento do NX terá algo parecido. 2017 promete!