Ministro da Justiça diz que jogos incentivam violência

Ministro da Justiça diz que jogos incentivam violência

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, deixou os gamers brasileiros indignados na última quinta-feira (14). Em viagem aos Estados Unidos, ele participou de um evento, em Washington, onde falou sobre o pacto nacional contra homicídios que o Governo Federal pretende anunciar nas próximas semanas.  Na ocasião, ele sugeriu que jogos com temas violentos ajudam a alimentar a criminalidade no Brasil.

“A violência é hoje cultivada e aplaudida, seja em esportes ou jogos de crianças pequenas (…) Outro dia ouvi um especialista dizer que nunca viu um game em que o vencedor é quem salva vidas, pois o vencedor é sempre quem mata. Essa cultura da exaltação da violência se projeta e acaba banalizando a violência, disseminando uma realidade perversa em que seres humanos podem aniquilar, ferir os outros em atos que não socialmente reprovados” (José Eduardo Cardozo)

Afinal, a fala do ministro procede?

Eu discordo 100% dela. Mas é verdade que, ao fazer algumas buscas na internet, encontramos várias pesquisas sobre o assunto. O pior é que elas não entram em consenso. Pelo contrário, expõem como o tema divide especialistas. Por isso, optei por conversar com gente gabaritada aqui em Pernambuco para opinar com embasamento científico.

Jogos estimulam a violência? Especialistas comentam

Conversei com Luciano Meira, pedagogo, pesquisador e professor do Departamento de Psicologia da UFPE. Ele também é empreendedor da Joy Street, empresa pernambucana situada no Porto Digital e que trabalha com jogos educacionais.

“As pesquisas geralmente utilizadas para mostrar uma suposta correlação entre violência e videogames derivam, muitas vezes, de pesquisas relacionadas à cultura de mídias, tendo na verdade a TV – e seu modo passivo de ativação da audiência – como objeto principal dos estudos”, explica Luciano Meira.

Em outras palavras, ele considera que linhas de pesquisa envolvendo jogos eletrônicos são relativamente novas e ganharam força há mais ou menos 15 anos. É diferente dos computadores, que, segundo o professor, receberam uma atenção maior antes dos games.

A justificativa que o psicólogo encontra para tantos resultados diferentes é o uso de metodologias inadequadas. “Costuma-se confundir pesquisa de mídia com pesquisa de videogame porque ambos se passam na tela. Mas são coisas bem diferentes”, pontua.

Ele ainda acrescenta que aqueles estudos que considera mais confiáveis nunca concluem que os jogos influenciam no comportamento agressivo. “E naqueles que identificam a suposta correlação, existe ao mesmo tempo forte associação com background familiar e educação escolar. Ou seja, o problema não está no videogame”, afirma.

Luciano Meira também afirmou que entendia a lógica das pessoas: se um jogo educativo pode trazer benefícios, então um game de conteúdo violento influencia o comportamento de forma negativa, certo?

Na verdade, não é bem assim…

“Um jogo educativo é desenhado por educadores que se preocupam com a mecânica, o conteúdo e o aprendizado. São concebidos este fim. Já um game como GTA é pensado apenas para entretenimento e não para formar criminosos. Ele faz uso da estética da violência, que é diferente da violência real. É até uma espécie de contraponto com a violência física”, analisa o professor.

Games e comportamento agressivo

O psicoterapeuta cognitivo-comportamental Igor Lins Lemos observa que existem muitos debates em relação aos videogames e se eles têm influências boas ou negativas. Ele é doutor em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento pela UFPE e especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental Avançada pela UPE, além de palestrar e pesquisar sobre dependências tecnológicas.

“Uma informação empiricamente comprovada por estudos de neurociência é que jogos eletrônicos influenciam, sim, negativamente. Mas a questão é que o cérebro interpreta e absorve todo tipo de informação”, afirma. No fim das contas, acaba existindo também uma influência positiva.

Igor exemplifica imaginando um jogo com diálogos em inglês ao interagir com as pessoas. Ele pode ajudar o jogador a aprender o idioma, assim como um game de tiro desenvolve habilidades de reflexo rápido ou tomada de decisão. “A literatura científica considera que todas essas coisas são influências dos jogos eletrônicos”, diz.

De acordo com ele, é impossível que, diante de tantos estímulos, o cérebro selecione quais serão ou não apreendidos. “Não é como se o cérebro pudesse descartar a parte da violência e ficar apenas com o desenvolvimento do reflexo. Tudo é absorvido, mas não necessariamente reproduzido. Ou, se for reproduzido, é com coisas muito pequenas”, explica.

Mais um exemplo:

Ao jogar um game com conteúdo violento, o cérebro interpreta esse estímulo e pode reagir diante disso, gerando uma alteração hormonal que libere mais cortisol – responsável pelo processo de luto ou fuga. Ou até mesmo provocar uma resposta ríspida se o jogador for interrompido naquele momento, do tipo “ah, cara, para de encher meu saco”.

Apesar disso, Igor delineia uma grande diferença para usuários de jogos eletrônicos envolvidos em atrocidades, como tiroteios em massa. “Geralmente tem outras questões associadas, como uma família disfuncional, abuso de álcool ou preconceito social. A lista é enorme e, se tudo é absorvido, os games jamais podem ser apontados como única causa de um comportamento agressivo.  Isso é um mito. É preciso analisar um cenário muito mais amplo para determinar o comportamento agressivo do paciente e o jogo acaba sendo um ponto no meio disso tudo”, destaca.

Marta Suplicy e os jogos

Não é a primeira vez que um ministro brasileiro emite uma opinião polêmica sobre a indústria dos jogos. Marta Suplicy, em 2013, quando era ministra, chegou a dizer que games não eram cultura. A Square Enix, em resposta, enviou para ela uma carta e um disco com a trilha sonora orquestrada de Final Fantasy. No ano seguinte, ela se redimiu em uma Campus Party, voltando atrás da declaração.