Por que Pokémon Go faz tanto sucesso? - BitBlog

Por que Pokémon Go faz tanto sucesso?

lançamento de Pokémon Go no Brasil continua sendo um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. O game, desenvolvido pela Niantic através de uma parceria com a Nintendo e a The Pokémon Company, divide as opiniões de muita gente. Odiado por uns e adorado por outros, o fato é que o título completou um mês de existência neste fim de semana e já alcançou a impressionante marca de 100 milhões de downloads nas lojas do Google e da Apple. Por isso, o BitBlog ouviu profissionais e pesquisadores do mercado de jogos eletrônicos para entender de onde vem o sucesso de Pokémon Go. Na sequência, também deixamos registrada a opinião de um dos editores do blog.

Comportamento digital

Luciano Meira – empreendedor na Joy Street e professor do Departamento de Psicologia da UFPE

O produto da Niantic, desenvolvedora do Pokémon Go, emerge na interseção e no timing certo de cinco caraterísticas importantes do envolvimento atual das pessoas com o mundo e do comportamento digital contemporâneo:

1) É game! Além disso, tem todas as características de um bom game, com balanceamento adequado entre diversão, obtenção de feedback e construção de vínculos com outras pessoas;

2) Faz uso de uma combinação de mecânicas clássicas de sucesso como “caça ao tesouro” e “coleção de grupos”;

3) Emprega com competência técnicas de realidade aumentada, através da qual os jogadores podem finalmente e literalmente ver e transformar o mundo físico através das telas de seus smartphones;

4) É móvel! O mundo todo é mobile e o sucesso de quase qualquer coisa digital hoje depende de sua capacidade de acompanhar os constantes movimentos migratórios dos indivíduos;

5) É social, equilibrando aspectos de colaboração e competição de maneira a manter as pessoas associadas em diálogo.

Público cativo

Breno Carvalho – coordenador do curso de Jogos Digitais da Unicap

Pokémon foi criado em 1995 e lançado para o Game Boy original um ano depois. Na época, ele fez grande sucesso, o que possibilitou a criação de outros produtos como cards, brinquedos, série de televisão, mangás e artefatos colecionáveis. Os monstrinhos ganharam fama quase comparada ao encanador Mario, também personagem icônico da Nintendo.

Passada uma década, a franquia celebrou o aniversário com o lançamento de novos jogos e estes venderam mais de 200 milhões de cópias. Em 2016, Pokémon Go chegou aos smartphones unindo realidade aumentada e geolocalização, o que mudou a maneira de jogar.

A Nintendo sempre entregou aos jogadores novas experiências de jogo e de uso de tecnologias. A realidade aumentada e a geolocalização já eram usadas em outros games, inclusive da própria Nintendo. Mas a diferença é que esses ingredientes não eram unidos a personagens tão famosos. Os Pokémons agora habitam o mundo real: estão na sua casa, no seu bairro, na sala de aula, nos programas de telejornais… Em todo lugar!

O que é mais interessante é como a Google e a Nintendo estão recebendo mídia espontânea e cativando não apenas pessoas, mas também empresas, já que o jogo possibilita negócios na vida real. Os gamers que ficavam jogando dentro de seus quartos agora fazem o mesmo nas ruas e até constroem novas amizades à medida em que exploram diferentes ambientes.

Produto cultural

David de Oliveira Lemes – Professor do curso de Jogos Digitais da PUC-SP e editor do GameReporter.

O primeiro ponto que explica o sucesso de Pokémon Go é a nostalgia para os mais velhos e a novidade para os mais novos. Aliado a isso, temos uma franquia de sucesso que é também um produto cultural.

Do ponto de vista de jogabillidade, a experiência de jogo é muito simples, limitando-se a itens colecionáveis e outras poucas ações. Contudo, a combinação de uma franquia de sucesso, com um game de coleta de itens geolocalizados e realidade aumentada mostrou-se eficiente. Os jogadores precisam viver a experiência do jogo em vez de apenas jogá-lo na tela do celular.

Por fim, não podemos esquecer da experiência social ao jogar Pokémon Go, que somada aos fatores citados anteriormente, compõe este game de sucesso.

Fator nostalgia

Thiago Neres – Editor do BitBlog e editor-assistente de Redes Sociais do Diario de Pernambuco

Pokémon Go não se trata de realidade aumentada ou geolocalização, mas de nostalgia. É florescendo este sentimento de nostalgia que Stranger Things conquista os assinantes do Netflix e Chaves se eterniza como um dos símbolos da televisão brasileira. A maior parte das críticas contra o game parte de pessoas que, durante sua infância, não vivenciaram o fenômeno Pokémon. Logo, é difícil para elas entenderem o carinho dos fãs – assim como eu vou ter dificuldade em perceber por que Chacrinha, que marcou toda uma geração, foi tão idolatrado.   

Pokémon aportou na televisão brasileira em uma época que animes se popularizavam por aqui e havia uma quantidade significativa de telespectadores órfãos da extinta Rede Manchete. Inclusive, o desenho japonês estreou no Brasil em 1999, mesmo ano em que a emissora encerrou as atividades. Existia uma espécie de “disputa” entre as crianças da época: uma turma preferia a Globo, com Angélica e Digimon. Outra escolhia Pokémon, apresentado por Eliana na Rede Record. Somado a essas competições infantis que a garotada adora, houve um investimento muito forte em marketing. A Elma Chips, por exemplo, enfiou cards de Pokémon nos salgadinhos e era possível “batalhar” com eles. Filmes de Pokémon lotavam as salas dos cinemas nacionais em períodos de férias. O Game Boy, que era o videogame da moda na época, era a plataforma responsável por acomodar a primeira geração de Pokémon – as versões Red e Blue. 

Pokémon Go vende a nostalgia, vende o resgate das lembranças felizes de um produto cultural que marcou as crianças da minha geração em um momento de nossas vidas em que não havia preocupação com contas a pagar. Era quando a maioria de nós se preocupava apenas com o boletim do colégio. Agora essa coisa toda volta revestida de tecnologia, na palma da mão, com elementos que estimulam a interação com os demais jogadores e a exploração do mundo ali fora do seu quarto. Essa geração, que também domina as redes sociais, conseguiu criar um hype tão grande em cima do jogo a ponto de despertar a curiosidade em gente de todas as idades.