O que vai rolar no Acontece Empreendedorismo do Cesar

Startups e empresas maduras trocam experiências no Acontece Empreendedorismo

O Centro de Estudos Avançados do Recife (Cesar) realiza, nesta quinta-feira (19), o Acontece Empreendedorismo. O evento, com público estimado em 200 pessoas, promete um ambiente favorável para a troca de experiências entre startups e empresas maduras. De acordo com a assessoria de comunicação do instituto, o encontro será dividido em dois blocos de debates.

O primeiro bloco terá como tema O que acontece quando unimos academia, investidor e empreendedor na resolução de problemas complexos?. Integram o painel Ubirakitan Maciel, da NeuroUP; Rosana Fernandes, da Baita Aceleradora; e Yves Nogueira, da TYNNO Negócios e Participações.

O segundo bloco trará debates sobre o tema O que acontece quando as startups amadurecem e os empreendedores dão lugar a gestores? É possível continuar inovando?, e terá a participação de Ângelo Leite, da Serttel; Leo Marroig, da Xiaomi; e Mateus Silveira, da Fiat Chrysler Automobiles (FCA).

Os debates serão mediados por Giordano Cabral, da D’accord, e pelo executivo chefe de negócios do Cesar, Eduardo Peixoto. Ao final, Silvio Meira irá fechar o evento com uma provocação.

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Os temas são muito oportunos e revelam preocupações reais tanto da geração jovem de empreendedores como dos empresários já consolidados no mercado que buscam a inovação. São questões discutidas exaustivamente em meetings e ajudam a amadurecer uma visão empreendedora. O evento vai trazer atores importantes do ecossistema local, mas se preocupando também em ouvir gente de fora.

E por que se bate tanto na tecla da  inovação? Silvio Meira tem uma frase maravilhosa sobre isso: “Inovação é sempre impermanente, imperfeita e incompleta”. Em outras palavras, é um movimento contínuo.

O Acontece Empreendedorismo também é a oportunidade de conhecer melhor a aceleradora CESAR.LABS, que embora não seja tão lembrada em Pernambuco como a Jump, recebe empreendimentos interessantes e conta com suporte de todo um background técnico e renomado do instituto. Inclusive, ela abriu inscrições para receber novas startups em agosto último e ainda está finalizando todas as etapas do processo seletivo.

Bom ficar de olho, inclusive, na própria NeuroUP, que marcou presença na última Campus Party Recife e traz uma solução que agrega hardware e software direcionada para o setor de saúde. Saiba mais no vídeo acima.

SERVIÇO

ACONTECE EMPREENDEDORISMO
Data: 19 de novembro de 2015
Hora: 14h às 19h
Local: Di Branco Recife Antigo, na Rua do Apolo, 199 – Bairro do Recife
Realização: Cesar
Inscrições: Clique aqui
Valor: R$ 80

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ENTREVISTA // MATEUS SILVEIRA

Mateus Silveira Fiat

O BitBlog conversou com Mateus Silveira, especialista em Future Insights na Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Formado em design de produto pela Universidade Estadual de Minas Gerais, ele ingressou na companhia ainda estagiário, em 2000, e evoluiu sua carreira como designer até liderar o time de interiores automotivos. Hoje se aventura no universo de cenários futuros e inovação sustentável. Esteve diretamente envolvido no projeto do Fiat Mio, um carro conceitual da fabricante italiana concebido em uma plataforma digital aberta.

Um dos convidados do Acontece Empreendedorismo realizado pelo Cesar, Mateus Silveira falou sobre as barreiras burocráticas que o empreendedor brasileiro precisa enfrentar e disse que via no coworking uma estratégia para reduzir a taxa de mortalidade das pequenas empresas. Defendeu que a cultura de inovação das empresas não seja focada apenas em processos, mas nas pessoas. Sobre a indústria automotiva, frisou que a culpabilização do carro como grande vilão da mobilidade urbana deve ser superada e lembrou a necessidade da “combinação justa, inteligente e eficiente de todos os modais”. Confira abaixo:

Uma das queixas frequentes dos empreendedores brasileiros são os trâmites burocráticos para abrir uma empresa ou regularizar um imóvel, além da complicação tributária. Você enxerga alguma perspectiva de melhora nesses aspectos? De que forma o empreendedor pode se preparar para enfrentar melhor essas barreiras?

O Brasil é um grande mercado consumidor e com muitas possibilidades de negócios para serem exploradas. Para driblar as várias barreiras burocráticas, uma sugestão é aprender com iniciativas inovadoras que já estão dando certo e ver como esses empreendedores estão enfrentando essas situações. Recentemente, li a respeito de um grupo que formou o Dínamo, um movimento de articulação na área de políticas públicas focado no ecossistema de startups, que pretende também discutir como desatar os “nós” da burocracia. É uma iniciativa muito interessante para dinamizar esse ambiente de evolução das startups.

Complementando, avalio que há a cultura de subversão presente na nova economia. Para as startups, as dificuldades definem oportunidades. É nesse cenário, por meio de abordagens criativas, que se encontram novas saídas. O que eles geralmente fazem no dia a dia é “hackear” os sistemas existentes em buscas de novas possibilidades.

O Sebrae demonstra preocupação com a alta taxa de mortalidade das pequenas empresas brasileiras. A que você atribui isso? No caso das startups, que precisam inserir inovação no modelo de negócios e, consequentemente, pensar fora da caixa, podemos considerar natural uma alta taxa de mortalidade?

Uma startup é criada sob condições de extrema incerteza. Como são empresas que assumem o risco de inovar desde a concepção do negócio, enfrentam muitos desafios para se manterem no mercado. Avalio que a dificuldade das pequenas empresas brasileiras sobreviverem está relacionada à falta de planejamento e resiliência para vencer as burocracias e impostos enquanto o negócio ainda está amadurecendo. No caso das startups, esse desafio é ainda maior porque é preciso estabelecer território no mercado e ter o reconhecimento da proposta de valor enquanto se vencem as burocracias. Vale lembrar que, muitas vezes, falhar faz parte do aprendizado. Um caminho interessante que as startups podem seguir para reduzir as chances de descontinuidade é utilizar estratégias como coworking, FabLab, aplicar o conceito Fail Fast.

Sabemos que a inovação não fica restrita ao plano das ideias. Ela pode até ser alcançada com a execução diferenciada de uma ideia comum, um atendimento personalizado ou uma logística repensada para agregar mais qualidade ao serviço/produto. Há empresas, no entanto, que não conseguem fazer nenhuma dessas coisas. Por que é tão difícil inovar? Como desenvolver uma cultura de inovação dentro da empresa?

A inovação pressupõe mudanças a partir de um olhar mais amplo sobre as questões que impactam a sustentabilidade da empresa no longo prazo, impulsionando “novas formas de fazer”. Sempre há resistências quando falamos de mudanças, de sair da zona de conforto, mas isso faz parte do trabalho do “inovador”. Com convicção e argumentos sólidos, o inovador deve estar preparado para vencer essas barreiras.

Hoje, um dos grande desafios das empresas é promover a cultura da inovação a partir das pessoas, com a criação de um terreno fértil que impulsione novas ideias. Algumas empresas tentam fazer essa mudança exclusivamente por meio de processos, esquecendo das pessoas.

Na FCA, acabamos de criar um laboratório de criatividade aplicada, que recebeu o nome de “Afterburner”, em referência à câmara de combustão utilizada em foguetes quando é necessário um empuxo-extra, como a decolagem. O afterburner é utilizado apenas em momentos essenciais, pois consome muito combustível. Foi baseado nesse conceito que criamos esse projeto, que vai dar uma força-extra às ideias, consideradas de grande potencial, para superar barreiras. Com o “Afterburner”, teremos uma força-extra para explorar novos territórios e nos aproximar de culturas diferentes.

A preocupação com o impacto social é uma das razões para as marcas investirem em soluções que buscam o desenvolvimento sustentável. Elas sabem, também, que há uma cobrança crescente por conta da sociedade. Como os empreendedores podem atender essas expectativas dentro do cenário desfavorável citado acima?

Na FCA, temos aprendido com o “Afterburner” que a inovação acontece pela soma de diferentes elementos: a colaboração; o choque de culturas (por exemplo, entre empresas, universidades e poder público); um propósito comum; pessoas e ideias (de dentro para fora e vice-versa). Acredito muito no trabalho colaborativo como forma de reunir pessoas com diferentes habilidades e competências para, coletivamente, ajudarem resolver os problemas mais preeminentes de nossas indústrias. Há uma frase de Abraham Lincoln que gosto muito: “Os dogmas de um passado calmo são inadequados a um presente tempestuoso. O nosso presente é extraordinariamente difícil e nós temos de nos elevar com o desafio. Como o nosso caso é novo, temos de pensar de uma nova maneira e agir de uma nova maneira!”. Essa frase é uma inspiração para trabalharmos com ousadia em cima de verdades difíceis, combatendo tabus, tendo entregas com valor compartilhado. No Draft, há um texto também inspirador que gostaria de compartilhar.

Qual a visão da Fiat sobre mobilidade urbana e quais as iniciativas dentro e fora da empresa para o avanço dessa discussão?

Melhorar a mobilidade é ampliar o acesso às oportunidades. Ou seja, a cidade precisa oferecer uma rede de opções de modais interconectada que dê opções de escolha às pessoas. A boa mobilidade não é necessariamente a que tenha mais metrôs, corredores de ônibus, avenidas, ciclovias ou calçadas de qualidade, mas a que faça uma combinação justa, inteligente e eficiente de todos os modais possíveis para acessar as oportunidades. Ao mesmo tempo, o território da cidade precisa aproximar as pessoas das oportunidades, levando empregos para as periferias e trazendo gente para morar nos centros, encurtando as distâncias e simplificando a equação da mobilidade.

No contexto da mobilidade, criamos o projeto “Futuro das Cidades”. Como primeiro passo, em conjunto com o USP Cidades e parceria com a Coppead (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e Cesar (Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), concluímos em 2014 o estudo preliminar “Cidades e Mobilidade Urbana”.

O objetivo do estudo foi promover uma discussão a respeito do futuro da mobilidade urbana no Brasil e estamos mobilizando empresas, academia, entidades da sociedade civil e do terceiro setor para uma reflexão sobre o tema. Estamos, agora, fazendo uma pesquisa para identificar algumas cidades ao redor do mundo que estão à frente das discussões relacionadas ao planejamento e mobilidade urbana. A ideia é conhecer os projetos, as pessoas por trás das ideias, usuários e também vivenciar as soluções que elas deram para seus problemas.

Também estamos participando de alguns eventos para compartilhar nossa experiência e aprendizados para estimular e inspirar outras iniciativas. A participação que mais nos orgulhamos foi no SxSW, um dos maiores eventos da economia criativa nos EUA. Fomos convidados para mostrar a forma como estruturamos o projeto, conduzimos as interações e o espírito de colaboração.

O automóvel costuma ser apontado como o grande vilão da mobilidade urbana. Qual sua opinião? Dá para pensar em cidades sustentáveis sem prejudicar a indústria automobilística?

Culpar o carro não vai adiantar em nada para resolver esse problema. Essa ideia de que o automóvel é o vilão da mobilidade urbana precisa ser superada. Talvez seja mais correto compreendê-lo como um passo evolutivo para consolidar a efervescência do território de uma cidade. Se a Times Square, em Nova Iorque, é hoje uma via de pedestres, é porque ela teve seu papel histórico importante como avenida para veículos na história de Manhattan. Houve um momento em que fazia sentido passar de carro por lá. É por esse momento que algumas cidades brasileiras estão passando agora.

A jornalista e ativista americana Jane Jacobs diz, em seu livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, que o excesso de veículos motorizados e uma avenida congestionada não são a causa de um problema, mas o sintoma. Banir os carros não resolveria o acesso das pessoas às oportunidades. O carro particular tem suas vantagens e não podemos ignorá-lo. No futuro das cidades, acreditamos no resgate do conceito de que o carro assume cada vez mais o papel de veículo de passeio, para o qual foi inicialmente projetado.

O que acha da proibição do Uber em várias cidades brasileiras e do exterior?

O Uber é um novo modelo de negócio que pode criar oportunidades de trabalho e fomentar o empreendedorismo. O Uber é um serviço que descreve bem essa nova economia que vem surgindo impulsionada pela revolução digital. Eles surgem para quebrar paradigmas em economias tradicionais e estabelecidas. Assim como falamos na primeira pergunta, eles identificaram uma oportunidade de entregar uma solução diferente aquilo que já era feito. Subverteram o sistema. Assim como toda inovação disruptiva, precisa de tempo para ser compreendido, ajustado e validado.

A forma como trabalham focados no consumidor, respondendo de forma rápida demandas e oportunidades de mercado e otimizando os recursos disponíveis, é um traço marcante dessa nova economia. Além do Uber, existem outros atores que também estão promovendo as mesmas discussões em outros setores.