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Silvio Meira diz que Brasil precisa ser reescrito e alcançar competitividade global

É impossível fazer uma lista das personalidades mais reconhecidas no fomento à inovação em Pernambuco sem lembrar de Silvio Meira. Genial, visionário e dono de opiniões fortes, o paraibano de 60 anos participou ativamente da fundação do Centro de Estudos Avançados do Recife (Cesar) e do Porto Digital, nosso polo de tecnologia da informação e economia criativa. Ainda hoje continua envolvido no desenho de estratégias para as duas instituições e é professor associado da Escola de Direito da FGV no Rio de Janeiro. Silvio também é um dos idealizadores da Ikewai, que atua criando redes de empreendedores, e é parceiro do Grupo DUCA, nascido no Recife neste segundo semestre. O cientista recebe, nesta terça-feira (15), o título de professor emérito da UFPE, onde lecionou por vários anos. Trata-se de um reconhecimento que ele considera o maior de sua carreira. Em entrevista ao Diario de Pernambuco e BitBlog, Silvio Meira criticou duramente a falta de competitividade brasileira no mercado global e analisou o impacto da crise econômica e política nas pequenas e médias empresas.

ENTREVISTA COM SILVIO MEIRA

O que significa para você receber o título de professor emérito da UFPE?

Sou muito grato à UFPE – e ao Centro de Informática, em particular – por todas as oportunidades que tive em minha carreira de 36 anos em todos os níveis de docência, desde professor colaborador a titular, no qual me aposentei em 2014, passando pelo mestrado em ciência da computação, que fiz entre 1978 e 1981. Receber da “minha universidade” o título de professor emérito é uma grata adição a uma história de décadas de trabalho e um reconhecimento dos meus pares, colegas e amigos. É, sem dúvida, o título mais importante da minha carreira.

O Cesar nasceu na década de 1990 por uma série de motivos. Um deles era o incômodo com a fuga de estudantes para outras cidades. Hoje existem mais oportunidades, porém este movimento ainda acontece. Referência em qualidade de ensino, frequentemente o CIn tem alunos contratados por grandes companhias do setor de TI. Qual sua análise sobre isso?

O Cesar cumpriu e cumpre, desde que foi criado, múltiplos papéis. Uns que nós desenhamos, como ser um atrator de capital humano no Recife e para Recife, e outros que surgiram no processo, como ser uma referência brasileira em inovação. É absolutamente normal e desejável que formados por todas as escolas superiores daqui e de qualquer canto saiam do lugar onde estudaram para trabalhar e estudar (mais) em outros países e instituições. Hoje, parte da riqueza e diversidade de competências do Porto Digital vem exatamente dos que aqui estudaram, saíram e voltaram, combinada com aqueles que vieram de fora, estudaram e ficaram aqui. Essa fusão é responsável por criar, manter e evoluir redes de capacidades e competências de classe global aqui e em qualquer lugar onde acontece. Ainda bem que está rolando aqui, agora. Temos que trabalhar, constantemente, para que continue assim.

Você passou 12 anos como cientista-chefe do Cesar até deixar o cargo no ano passado. Ainda participa ativamente do desenho de estratégias para o instituto?

Uma pessoa me disse, um dia, que eu iria sair do Cesar, mas o Cesar não sairia de mim. Pura verdade. Ainda participo do desenho do Cesar como consultor da presidência e como pessoa e cientista, desde a criação de novos projetos até novas instituições no e ao redor do Cesar, como o CIEL.network. Estou interessado e envolvido com toda instituição de conhecimento, educação e inovação que queira, de fato, participar do processo de desenvolvimento do Nordeste a partir do Recife, cidade única da região e do país.

Em uma entrevista, você disse que são necessários 25 anos para determinar se um parque tecnológico deu certo. O Porto Digital, que ajudou a fundar, já tem 15. Com o que ele precisa se preocupar, nos próximos dez anos, para garantir o saldo positivo?

Como quase ninguém ignora, os próximos dez anos serão muito difíceis para o Brasil. A irresponsabilidade no trato com a coisa pública gerou uma crise de proporções “nunca dantes vista na história desse país”, para fazer blague com o que costumava propalar um certo ex-presidente. Os próximos dez anos, para toda e qualquer instituição, serão muito difíceis. Para o Porto Digital, que é uma política pública, a década vindoura será de desafios muito grandes, que poderão adiar o estágio de sustentabilidade independente do Estado em uma outra década ou mais. Mas nós nunca achamos que ia ser fácil criar e manter um sistema local de inovação em tecnologia da informação nos trópicos, quase Equador, periferia de tudo. O Brasil não é um país para principiantes, já dizia Tom Jobim. Nós vamos trabalhar como nunca trabalhamos.

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“O Brasil patrimonialista trabalha contra a criatividade, a inovação e o empreendedorismo” – Silvio Meira

Grandes empresas de tecnologia começaram como startups e lucro zero. Por aqui, o nascimento ainda esbarra na velha burocracia brasileira. Como o empreendedor pode superar as dificuldades deste ciclo inicial?

O Brasil precisa ser reescrito. O Brasil patrimonialista, do Estado babá e tutor, que quer determinar e cuidar de tudo da vida do cidadão e das instituições. O Brasil oficial, onde tudo o que não é explicitamente permitido é terminantemente proibido. Esse Brasil trabalha contra a criatividade, a inovação e o empreendedorismo. Trabalha também contra uma economia brasileira que seja globalmente competitiva. Há muito o que fazer no Brasil. Da simplificação do processo de criação e fechamento de negócios à diminuição do número e complexidade dos impostos. Muitos países já passaram por isso. Mas estamos demorando demais num estágio pré-competitivo, do ponto de vista global, como se algo nos agarrasse, nos prendesse a um passado colonial, como se outros, e não nós, tomassem decisões aqui. Talvez estejamos precisando de uma nova Constituição e de uma nova (classe) política. Há algum tempo, por sinal.

Você costuma dizer que inovação se aprende no mercado. Por quê?

A definição de inovação que eu acho mais apropriada é a de Peter Drucker, dada há décadas: “inovação é a mudança de comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa”. É no mercado que propostas de valor diferentes se encontram e competem. Sem a aceitação do consumidor, algumas são só propostas, e não inovação. Faça uma lista de coisas interessantes, mas irrelevantes, que apareceram no mercado na última década. Compare com o que realmente decidimos usar – e, de alguma forma, comprar – que fica fácil ver porque mercado e aceitação são fundamentais para inovação.

Políticas públicas têm um papel importante no estímulo à criação de pequenas e médias empresas. Estas, por sua vez, respondem por até 27% do PIB, segundo dados do Sebrae. O cenário de instabilidade política que o Brasil atravessa pode ter impacto nos empreendedores?

As pequenas e médias empresas são fundamentais enquanto estão em processo de crescimento para se tornar grandes negócios. As micro, pequenas e médias empresas brasileiras são muito menos competitivas do que seus competidores internacionais e respondem por uma parcela muito menor do PIB do país do que suas contrapartes europeias, por exemplo. Parte disso se deve à grande complicação brasileira. Nosso arcabouço educacional, fiscal, jurídico, trabalhista, de infraestrutura e até uma mentalidade subdesenvolvida que enquanto acha que “o Brasil é grande”, não consegue se inserir nos mercados internacionais. Os motivos vão de falta de qualidade do produto até falta de entendimento de mundo. Sem mercados internacionais, dependendo quase totalmente do mercado interno, os pequenos e médios negócios são sempre duramente atingidos por crises como essa. Bem que poderíamos aprender, desta vez, a olhar para o mundo, que é dezenas – centenas ou milhares, em alguns mercados – de vezes maior que o Brasil e fazer nossa lição de casa para o futuro.

An illustration picture shows the logo of car-sharing service app Uber on a smartphone next to the picture of an official German taxi sign

“Os taxistas e suas cooperativas poderiam ter evoluído para modelos de prestação de serviços como Uber. Mas isso quase nunca acontece porque há muito investimento no passado” – Silvio Meira

As indústrias de TI e economia criativa são cada vez mais permeadas de disputas entre velhos modelos e novidades disruptivas. É o caso de operadoras versus Whatsapp, emissoras versus Netflix e taxistas versus Uber. É possível que os dois lados consigam conviver ou um deles está fadado ao declínio?

É preciso entender que há um novo tipo de mercado começando a tomar forma e servir de base para toda a economia na forma de “mercados em rede”, onde as redes digitais habilitam e instrumentam todas as transações. As emissoras de TV poderiam ter “escrito” e estar “provendo” seus próprios Netflix. Os taxistas e suas cooperativas poderiam ter “evoluído” para modelos de prestação de serviços como Uber. Mas isso quase nunca acontece porque há muito investimento no passado, seja em capital, métodos, processos, educação ou cultura. Quase nunca se vê um incumbente reescrevendo seu próprio mercado porque os regimes de incentivos trabalham a favor do passado. O passado, por um bom tempo, remunera muito bem e os agentes econômicos não só não veem razão para mudar, mas trabalham contra a mudança. Vez por outra há mudanças, como essas de agora, que são grandes demais para qualquer agente interromper. Mercados em rede vão mudar a economia do planeta. Radicalmente.

O que será tendência para os setores de TI e economia criativa no próximo ano?

Os próximos poucos anos fazem parte do “futuro do presente”, onde continuam acontecendo coisas que já vinham acontecendo ou que são de alguma forma determinadas por estas. Como eu disse anteriormente, mercados em rede já estão aí e mudando tudo. Mobilidade e smartphones vão se tornar cada vez mais presentes no país. Cada vez mais as pessoas criam, leem, veem e fazem coisas com um dispositivo móvel. Redes sociais e a cultura criada por elas estarão mais presentes e relevantes. Plataformas do passado, da TV à democracia representativa, passando pelo trabalho e sua regulação, serão desafiadas de forma radical. O próprio trabalho, a noção do que ele é, por quem e para quem é feito, e como é remunerado, vai mudar muito.

SAIBA MAIS

Silvio Meira é paraibano, nascido em Taperoá, e tem 60 anos. Ele é um dos cientistas mais reconhecidos do país e possui vasta produção científica.

Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Avançados do Recife e do Porto Digital. Atualmente é presidente do conselho do parque tecnológico.

Lecionou na Universidade Federal de Pernambuco durante 36 anos e receberá, amanhã, o título de professor emérito, um importante reconhecimento.

Costuma pregar que inovação deve ser feita olhando para o mercado. Em palestras, fala que “inovar é emitir mais e melhores notas fiscais”.

Seu perfil no Twitter (@srlm) traz opiniões sobre vários assuntos e uma curadoria de artigos que versam sobre tecnologia, inovação, empreendedorismo e política.