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PES 2017: entrevistamos Adam Bhatti, da Konami

Atualização (30/08/2016): a Konami confirmou o licenciamento de 20 clubes da Série A, além de pelo menos seis estádios. Milton Leite será o narrador da edição brasileira. Veja as novidades aqui.


Durante a E3 2016, ao chegar à sala de reuniões da Konami, rapidamente encontrei inúmeros PS4 com uma demo de PES 2017. Enquanto aguardava a apresentação sobre o game que seria feita por lá, resolvi jogar um pouco o novo Pro Evolution Soccer. Além do visual nitidamente superior, devido às melhorias feitas no motor Fox Engine, os goleiros claramente estavam fazendo defesas mais difíceis do que de costume. É, eu tinha notado algumas das melhorias da série neste ano, antes mesmo de ouvir os representantes da Konami.

O time responsável não consegue esconder a empolgação com as inovações desta versão, que tem como lema a frase “controle a realidade”. Entre as de maior destaque, além das já mencionadas, está a inteligência artificial adaptativa. A promessa é que o game aprenda como você joga, através de machine learning, e se adapte a isso. Em complemento, os movimentos dos jogadores estão mais naturais e os passes mais precisos. Os escanteios de PES, considerados “engessados” por alguns, receberam quatro esquemas possíveis, flexibilizando o uso de novas estratégias.

Quem curte partidas online vai gostar de saber que as estatísticas foram reforçadas. Você saberá mais sobre o seu histórico contra um amigo específico, por exemplo, além de ver registrado o estilo de jogo de cada um, categorizado por diferentes aspectos, como os movimentos preferidos. Por outro lado, a funcionalidade Edit Data Sharing possibilitará, no PS4, a transferência de times e jogadores personalizados via USB. Um novo myClub vai mudar a forma de contratar talentos.

Pro Evolution Soccer 2017 - myClubFicou mais simples a forma de contratação no myClub

Após a jogatina, entrevistei com exclusividade o Adam Bhatti, que é Global Product and Brand Manager da série PES. O representante da Konami falou sobre as melhorias, realidade virtual e até o mercado brasileiro. Confira!


As novidades de PES 2017 certamente são interessantes. Mas e quanto às edições do jogo no PS3 e Xbox 360? Elas também receberão estas inovações?

Ainda estamos olhando para a geração passada. Em resumo, posso assegurar a você que o “sentimento” ao jogá-las será o mesmo, mas as novas edições (PS4/Xbox One) são as mais precisas quanto à nossa visão para o título, principalmente no que diz respeito às animações e inteligência artificial. No fundo, é o mesmo motor de jogo, a Fox Engine, que é adaptável.

E quanto à versão para PC? Ela está mais próxima do PS4 e One, ou da geração passada?

Ainda não falamos em PC porque há vários detalhes a serem anunciados. O desenvolvimento não terminou e o lançamento está um pouco longe, já que será no inverno norte-americano (para o Brasil, entenda como verão). Posso garantir que o game, nos consoles (não a versão PC), terá mais mudanças significativas entre o 2016 e o 2017 do que aconteceu entre o 2015 e o 2016.

Pro Evolution Soccer 2017 - 2

Qual a visão de vocês em relação a realidade virtual na série PES?

Estamos discutindo isso neste momento. O foco para este ano são as melhorias já anunciadas, mas estaremos onde os jogadores estiverem. Se realidade virtual emplacar, por que não? No Brasil, por exemplo, ainda não há muitos PS4. Logo, o mercado de VR nele ainda não é grande. Vamos aguardar.

Recentemente, foi anunciado que os servidores online de PES 2015 serão desligados em agosto, em menos de 2 anos após o lançamento. Isso gerou insatisfação entre os fãs. Como isso afeta PES 2017?

Isto (desligar os servidores tão cedo) não é algo que planejamos. Não faríamos se houvesse público lá. No caso de PES 2015, creio que cerca de apenas 200 pessoas usavam recursos online. Notamos que os fãs se importam com atualizações de times e uniformes, entre outras melhorias, e por isso eles mudam de versão. PES 2015 foi um sucesso comercial, mas o público mudou. É caro manter servidores no ar e percebemos que pode ser mais benéfico, para ambas as partes, investir em melhorias para as edições seguintes.

No Brasil, há rumores da saída de Silvio Luiz da narração e a entrada de Milton Leite. Eles procedem?

(risos) Ainda não há nada a ser anunciado. Não posso responder sobre isso. Se tivermos que mudar (a narração), o que garanto é que a nova opção será definida para agradar os fãs.

Pro Evolution Soccer 2017 - 3

Quais times brasileiros estarão presentes em PES 2017?

Eu diria para o público não se preocupar. Faremos este tipo de anúncio na Gamescom, em agosto. Como o game ainda não tem uma data de lançamento específica, apenas a época (verão brasileiro), preferimos ficar confortáveis primeiro com o título antes de revelar mais detalhes. Ainda há questões a serem resolvidas no desenvolvimento.

Para terminar: como é feita a escolha de quais estádios estão representados no jogo? Quais os desafios em relação ao licenciamento?

Depende de parceria com os clubes. Quanto aos jogadores, por exemplo, temos que negociar os direitos um a um, por isso em PES 2016 tivemos tão poucas representações fiéis em cada clube. Já em relação aos estádios, também depende de negociação. Todo ano, no entanto, fazemos uma pesquisa global levando em conta a opinião do nosso público. Se os fãs quiserem muito sugerir algum estádio, por exemplo, podem entrar em contato conosco pelas redes sociais do PES, temos uma equipe para este fim. Para a versão 2017, já há muitos detalhes encaminhados, então só faríamos alguma adição se muita gente pedir.

Silvio Meira diz que Brasil precisa ser reescrito e alcançar competitividade global

É impossível fazer uma lista das personalidades mais reconhecidas no fomento à inovação em Pernambuco sem lembrar de Silvio Meira. Genial, visionário e dono de opiniões fortes, o paraibano de 60 anos participou ativamente da fundação do Centro de Estudos Avançados do Recife (Cesar) e do Porto Digital, nosso polo de tecnologia da informação e economia criativa. Ainda hoje continua envolvido no desenho de estratégias para as duas instituições e é professor associado da Escola de Direito da FGV no Rio de Janeiro. Silvio também é um dos idealizadores da Ikewai, que atua criando redes de empreendedores, e é parceiro do Grupo DUCA, nascido no Recife neste segundo semestre. O cientista recebe, nesta terça-feira (15), o título de professor emérito da UFPE, onde lecionou por vários anos. Trata-se de um reconhecimento que ele considera o maior de sua carreira. Em entrevista ao Diario de Pernambuco e BitBlog, Silvio Meira criticou duramente a falta de competitividade brasileira no mercado global e analisou o impacto da crise econômica e política nas pequenas e médias empresas.

ENTREVISTA COM SILVIO MEIRA

O que significa para você receber o título de professor emérito da UFPE?

Sou muito grato à UFPE – e ao Centro de Informática, em particular – por todas as oportunidades que tive em minha carreira de 36 anos em todos os níveis de docência, desde professor colaborador a titular, no qual me aposentei em 2014, passando pelo mestrado em ciência da computação, que fiz entre 1978 e 1981. Receber da “minha universidade” o título de professor emérito é uma grata adição a uma história de décadas de trabalho e um reconhecimento dos meus pares, colegas e amigos. É, sem dúvida, o título mais importante da minha carreira.

O Cesar nasceu na década de 1990 por uma série de motivos. Um deles era o incômodo com a fuga de estudantes para outras cidades. Hoje existem mais oportunidades, porém este movimento ainda acontece. Referência em qualidade de ensino, frequentemente o CIn tem alunos contratados por grandes companhias do setor de TI. Qual sua análise sobre isso?

O Cesar cumpriu e cumpre, desde que foi criado, múltiplos papéis. Uns que nós desenhamos, como ser um atrator de capital humano no Recife e para Recife, e outros que surgiram no processo, como ser uma referência brasileira em inovação. É absolutamente normal e desejável que formados por todas as escolas superiores daqui e de qualquer canto saiam do lugar onde estudaram para trabalhar e estudar (mais) em outros países e instituições. Hoje, parte da riqueza e diversidade de competências do Porto Digital vem exatamente dos que aqui estudaram, saíram e voltaram, combinada com aqueles que vieram de fora, estudaram e ficaram aqui. Essa fusão é responsável por criar, manter e evoluir redes de capacidades e competências de classe global aqui e em qualquer lugar onde acontece. Ainda bem que está rolando aqui, agora. Temos que trabalhar, constantemente, para que continue assim.

Você passou 12 anos como cientista-chefe do Cesar até deixar o cargo no ano passado. Ainda participa ativamente do desenho de estratégias para o instituto?

Uma pessoa me disse, um dia, que eu iria sair do Cesar, mas o Cesar não sairia de mim. Pura verdade. Ainda participo do desenho do Cesar como consultor da presidência e como pessoa e cientista, desde a criação de novos projetos até novas instituições no e ao redor do Cesar, como o CIEL.network. Estou interessado e envolvido com toda instituição de conhecimento, educação e inovação que queira, de fato, participar do processo de desenvolvimento do Nordeste a partir do Recife, cidade única da região e do país.

Em uma entrevista, você disse que são necessários 25 anos para determinar se um parque tecnológico deu certo. O Porto Digital, que ajudou a fundar, já tem 15. Com o que ele precisa se preocupar, nos próximos dez anos, para garantir o saldo positivo?

Como quase ninguém ignora, os próximos dez anos serão muito difíceis para o Brasil. A irresponsabilidade no trato com a coisa pública gerou uma crise de proporções “nunca dantes vista na história desse país”, para fazer blague com o que costumava propalar um certo ex-presidente. Os próximos dez anos, para toda e qualquer instituição, serão muito difíceis. Para o Porto Digital, que é uma política pública, a década vindoura será de desafios muito grandes, que poderão adiar o estágio de sustentabilidade independente do Estado em uma outra década ou mais. Mas nós nunca achamos que ia ser fácil criar e manter um sistema local de inovação em tecnologia da informação nos trópicos, quase Equador, periferia de tudo. O Brasil não é um país para principiantes, já dizia Tom Jobim. Nós vamos trabalhar como nunca trabalhamos.

silvio meira inovação empreendedorismo

“O Brasil patrimonialista trabalha contra a criatividade, a inovação e o empreendedorismo” – Silvio Meira

Grandes empresas de tecnologia começaram como startups e lucro zero. Por aqui, o nascimento ainda esbarra na velha burocracia brasileira. Como o empreendedor pode superar as dificuldades deste ciclo inicial?

O Brasil precisa ser reescrito. O Brasil patrimonialista, do Estado babá e tutor, que quer determinar e cuidar de tudo da vida do cidadão e das instituições. O Brasil oficial, onde tudo o que não é explicitamente permitido é terminantemente proibido. Esse Brasil trabalha contra a criatividade, a inovação e o empreendedorismo. Trabalha também contra uma economia brasileira que seja globalmente competitiva. Há muito o que fazer no Brasil. Da simplificação do processo de criação e fechamento de negócios à diminuição do número e complexidade dos impostos. Muitos países já passaram por isso. Mas estamos demorando demais num estágio pré-competitivo, do ponto de vista global, como se algo nos agarrasse, nos prendesse a um passado colonial, como se outros, e não nós, tomassem decisões aqui. Talvez estejamos precisando de uma nova Constituição e de uma nova (classe) política. Há algum tempo, por sinal.

Você costuma dizer que inovação se aprende no mercado. Por quê?

A definição de inovação que eu acho mais apropriada é a de Peter Drucker, dada há décadas: “inovação é a mudança de comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores de qualquer coisa”. É no mercado que propostas de valor diferentes se encontram e competem. Sem a aceitação do consumidor, algumas são só propostas, e não inovação. Faça uma lista de coisas interessantes, mas irrelevantes, que apareceram no mercado na última década. Compare com o que realmente decidimos usar – e, de alguma forma, comprar – que fica fácil ver porque mercado e aceitação são fundamentais para inovação.

Políticas públicas têm um papel importante no estímulo à criação de pequenas e médias empresas. Estas, por sua vez, respondem por até 27% do PIB, segundo dados do Sebrae. O cenário de instabilidade política que o Brasil atravessa pode ter impacto nos empreendedores?

As pequenas e médias empresas são fundamentais enquanto estão em processo de crescimento para se tornar grandes negócios. As micro, pequenas e médias empresas brasileiras são muito menos competitivas do que seus competidores internacionais e respondem por uma parcela muito menor do PIB do país do que suas contrapartes europeias, por exemplo. Parte disso se deve à grande complicação brasileira. Nosso arcabouço educacional, fiscal, jurídico, trabalhista, de infraestrutura e até uma mentalidade subdesenvolvida que enquanto acha que “o Brasil é grande”, não consegue se inserir nos mercados internacionais. Os motivos vão de falta de qualidade do produto até falta de entendimento de mundo. Sem mercados internacionais, dependendo quase totalmente do mercado interno, os pequenos e médios negócios são sempre duramente atingidos por crises como essa. Bem que poderíamos aprender, desta vez, a olhar para o mundo, que é dezenas – centenas ou milhares, em alguns mercados – de vezes maior que o Brasil e fazer nossa lição de casa para o futuro.

An illustration picture shows the logo of car-sharing service app Uber on a smartphone next to the picture of an official German taxi sign

“Os taxistas e suas cooperativas poderiam ter evoluído para modelos de prestação de serviços como Uber. Mas isso quase nunca acontece porque há muito investimento no passado” – Silvio Meira

As indústrias de TI e economia criativa são cada vez mais permeadas de disputas entre velhos modelos e novidades disruptivas. É o caso de operadoras versus Whatsapp, emissoras versus Netflix e taxistas versus Uber. É possível que os dois lados consigam conviver ou um deles está fadado ao declínio?

É preciso entender que há um novo tipo de mercado começando a tomar forma e servir de base para toda a economia na forma de “mercados em rede”, onde as redes digitais habilitam e instrumentam todas as transações. As emissoras de TV poderiam ter “escrito” e estar “provendo” seus próprios Netflix. Os taxistas e suas cooperativas poderiam ter “evoluído” para modelos de prestação de serviços como Uber. Mas isso quase nunca acontece porque há muito investimento no passado, seja em capital, métodos, processos, educação ou cultura. Quase nunca se vê um incumbente reescrevendo seu próprio mercado porque os regimes de incentivos trabalham a favor do passado. O passado, por um bom tempo, remunera muito bem e os agentes econômicos não só não veem razão para mudar, mas trabalham contra a mudança. Vez por outra há mudanças, como essas de agora, que são grandes demais para qualquer agente interromper. Mercados em rede vão mudar a economia do planeta. Radicalmente.

O que será tendência para os setores de TI e economia criativa no próximo ano?

Os próximos poucos anos fazem parte do “futuro do presente”, onde continuam acontecendo coisas que já vinham acontecendo ou que são de alguma forma determinadas por estas. Como eu disse anteriormente, mercados em rede já estão aí e mudando tudo. Mobilidade e smartphones vão se tornar cada vez mais presentes no país. Cada vez mais as pessoas criam, leem, veem e fazem coisas com um dispositivo móvel. Redes sociais e a cultura criada por elas estarão mais presentes e relevantes. Plataformas do passado, da TV à democracia representativa, passando pelo trabalho e sua regulação, serão desafiadas de forma radical. O próprio trabalho, a noção do que ele é, por quem e para quem é feito, e como é remunerado, vai mudar muito.

SAIBA MAIS

Silvio Meira é paraibano, nascido em Taperoá, e tem 60 anos. Ele é um dos cientistas mais reconhecidos do país e possui vasta produção científica.

Foi um dos fundadores do Centro de Estudos Avançados do Recife e do Porto Digital. Atualmente é presidente do conselho do parque tecnológico.

Lecionou na Universidade Federal de Pernambuco durante 36 anos e receberá, amanhã, o título de professor emérito, um importante reconhecimento.

Costuma pregar que inovação deve ser feita olhando para o mercado. Em palestras, fala que “inovar é emitir mais e melhores notas fiscais”.

Seu perfil no Twitter (@srlm) traz opiniões sobre vários assuntos e uma curadoria de artigos que versam sobre tecnologia, inovação, empreendedorismo e política.

Entrevistamos o estúdio de FAST Racing Neo (Wii U)

Atualização: já está disponível nossa análise do game, a primeira feita por um site brasileiro.


Quando surgiu a oportunidade de ter uma conversa exclusiva com o estúdio Shin’en, bateu a maior nostalgia. Lembrei das horas e horas jogando o clássico rail shooter Iridion 3D, do GBA, e sua renomada sequência. Sem falar ainda de seu sucessor espiritual, Nanostray (DS).

A empresa, fundada em 1999, é conhecida pelos jogos nas plataformas da Nintendo, embora já tenha se aventurado com uma adaptação para o PS4 (Nano Assault Neo X, 2014). Neste ano, em especial, um game chamou a atenção: FAST Racing Neo, para Wii U. O título chega em formato digital no dia 10 de dezembro, por um valor, no mínimo, agressivo: US$ 14,99. Com gráficos bem acima da média no console da Nintendo, além de um modo multiplayer promissor, FAST é aguardado por fãs do gênero de corrida futurista em alta velocidade, mas possui uma identidade própria – que o deixa bem diferente de F-Zero e WipeOut, por exemplo.

Conversamos com Manfred Linzner, CEO da Shin’en, sobre o lançamento, além de projetos futuros. Confira o papo, com exclusividade aqui do BitBlog!


Antes de tudo: além de ser CEO da Shin’en, qual o seu papel em FAST Racing Neo?

Como na maior parte das empresas menores, eu tenho várias responsabilidades. Estou com o design geral do jogo, programação da engine utilizada, codificação do gameplay e design de efeitos sonoros especiais.

Quanto durou o ciclo de desenvolvimento do título? Você encontrou desafios inesperados ao trabalhar com o Wii U?

Trabalhamos por três anos no game. Tínhamos uma visão clara de como ele iria ser jogado e apresentado e estas metas eram muito altas. O desafio foi atingi-las. No início da produção, os nossos objetivos pareceram quase impossíveis. Entretanto, aos poucos nós conseguimos resolver todas as questões técnicas.

Você está esperando um sucesso comercial? Ou acha que jogos de corrida futurísticos se tornaram nicho?

Este tipo de game é claramente um nicho, mas os fãs da Nintendo – em especial – buscam grande qualidade e estão dispostos a experimentar coisas novas. Achamos que FAST Racing Neo é um dos melhores títulos de corrida já feitos e esperamos que as pessoas sintam o mesmo.

FAST Racing Neo - tela ingame2Visual caprichado de FAST Racing Neo chama a atenção

Já sabemos sobre o multiplayer local, para até 4 pessoas, e o online, até 8. Vocês planejam algum modo online que permita mais de uma pessoa por console, como em Mario Kart 8?

Estamos orgulhosos de já oferecer tantos modos offline e online para o multiplayer. É mais do que muitos jogos de varejo oferecem e nossos títulos costumam custar uma fração do preço comum. Então, estamos bem satisfeitos neste momento com os modos já presentes.

Quais as principais diferenças que podemos esperar do Neo, comparando com o seu predecessor, FAST Racing League (Wii)?

É um game completamente novo. Ele é jogado, sentido e visualizado de forma bem diferente. A qualidade geral é muito mais alta. Então, não vemos como uma sequência, exatamente.

A Shin’en está planejando uma edição física do game? Eu adoraria tê-la.

Estamos, neste momento, focando no eShop (edição digital). Não sabemos sobre o futuro.

FAST Racing Neo - tela ingame multiplayer 4pModo cooperativo offline, para 4 pessoas, vai reviver disputas da década de 90

Depois do anúncio do Jack Merluzzi como a voz de anúncio das corridas (como em F-Zero GX, para GameCube), ficamos curiosos: há mais alguma surpresa que vocês ainda não revelaram?

Há muitos easter eggs escondidos no título. Estamos na expectativa para saber quantos deles os jogadores vão visualizar.

É notável que a Shin’en usa ao máximo o hardware da Nintendo. Lembro das tuas palavras sobre hardware não ser desculpa para não criar jogos bonitos. Agora, com tanta discussão sobre o uso de 1080p, muitos esquecem de aspectos mais importantes. Você acha que a indústria ficou preguiçosa?

Não costumamos avaliar tanto a indústria ou outras equipes. Para nós, o importante é ter uma visão do jogo. Então, vamos seguindo aquilo até sentirmos que é o melhor que pode ser feito. Para o futuro, vamos nos concentrar ainda mais em trazer um gameplay perfeito com a tecnologia perfeita.

Vocês planejam mais jogos para plataformas não-Nintendo?

Não temos nada a anunciar.

Nano Assault Neo-X, para PS4, foi o primeiro (e único até aqui) trabalho da Shin’en fora de plataformas Nintendo

E para o Wii U e o 3DS?

Estamos trabalhando em novos projetos, mas não temos nada para revelar neste momento.

Para fechar: e sobre o Nintendo NX? Você já o viu? Planeja algo? Estamos curiosos!

Trabalhamos até aqui com Game Boy Color, Game Boy Advance, Nintendo DS, Wii, 3DS e Wii U. Então, estamos sempre contentes ao poder experimentar novo hardware da Nintendo.

 

 

Startup portuguesa quer levar brasileiros para a Europa

O BitBlog costuma falar bastante de empreendedorismo, com foco em Pernambuco. Mas você já se perguntou como seria empreender fora do Brasil? E mais, falando para o público brasileiro? Hoje, escrevemos sobre a Landing.jobs, uma startup portuguesa que está de olho em nosso país. Através de uma plataforma online, especialistas de TI podem participar de processos seletivos em Lisboa, Londres e Amsterdã, entre outras cidades.

Conversamos com Flávia Motta, gerente de projetos, e Pedro Oliveira, co-fundador. Além de explicar o modelo de negócios da empresa, ambos falaram bastante sobre o momento da Landing.jobs e como ela pretende impulsionar a ida de brasileiros para a Europa. Confira:


Qual o foco de vocês exatamente para o Brasil? Firmar parcerias por aqui, para desenvolver o nosso mercado? Ou apenas buscar talentos e levá-los para a Europa?

Flávia Motta: Há um movimento para vir ao país – não apenas para encontrar candidatos, mas para ofertar oportunidades. Houve vagas que oferecemos em empresas como a BankFacil e a Dafiti. Entretanto, neste momento, a prioridade é ser uma ponte para os profissionais que querem viver uma experiência no exterior.

Qual a diferença da Landing.jobs em relação a outros sites, já consolidados, que envolvem contratação de pessoas?

Flávia Motta: Existe uma tendência de mudança no modelo de recrutamento mundial, para acabar com os processos onde o candidato não recebe retorno. Não quisemos apenas atuar como multiplicadores de vagas. Na Landing.jobs, o usuário não tem nenhum custo em manter seu cadastro na ferramenta e todos os perfis são revisados por nossos recrutadores. Além disso, fazemos contato com pessoas cujos currículos se destaquem, para percebermos qual a oportunidade ideal para elas.

Um outro diferencial da Landing.jobs são os referral rewards, prêmios que são dados aos especialistas que indiquem alguém para uma determinada vaga, caso aconteça a respectiva contratação. Também estamos lançando uma competição apenas para brasileiros, a Copa.Landing.jobs, que vai testar conhecimentos nas áreas de Back-end, Front-end, Data Science e Desenvolvimento Mobile. Vamos dar certificados a todos os participantes, 40 consultorias de carreira e 4 viagens a Lisboa.

Por falar em Lisboa, como é o mercado de TI por aí?

Flávia Motta: É recente. Eu, por exemplo, sou carioca e vim morar aqui há alguns meses. Tem muita gente empreendendo e algumas startups cresceram bastante, como a Farfetch, um e-commerce de luxo sediado na cidade do Porto. Semana passada, uma empresa de moda comprou o concorrente alemão, então as coisas estão acontecendo por aqui. Percebo que há muitas ideias principalmente nas áreas de educação, atendimento ao cliente e serviços bancários.

Poderia falar mais sobre o modelo de negócio do produto? Já que a plataforma é gratuita para os candidatos, como vocês monetizam o negócio?

Pedro Oliveira: Quem paga são as empresas que recrutam os candidatos. Sempre que um usuário pertencente à nossa plataforma é contratado, após um período de experiência de um mês, a organização passa a pagar uma taxa mensal de 1% do ordenado bruto do candidato durante 8 ou 12 meses, caso o serviço seja básico ou premium, respectivamente.

Qual o tamanho da Landing.jobs hoje? Quais os planos para os próximos anos?

Pedro Oliveira: Recebemos 750 mil euros de investimentos em 2015. Isso nos permite construir uma equipe que seja capaz de fazer a Landing.jobs crescer e, ao mesmo tempo, nos dá mais responsabilidade. Tem muita gente olhando para nós agora. Estamos crescendo em escala exponencial e ​estamos quase a supera​r​ as metas que estabelecemos com nossos investidores​ para 2015.

Eu poderia listar a quantidade de oportunidades de trabalho e de candidatos registrados, mas essa não é uma boa medida do nosso trabalho. Nosso verdadeiro foco está nas contratações bem-sucedidas. Nós já chegamos a países como ​Holanda, Brasil, Alemanha e Inglaterra. Abrimos um escritório em Londres, que é o verdadeiro hub tecnológico da Europa. Nós queríamos estar próximos às oportunidades de investimento futuro.

#CPRecife4: Entrevista com Tulio Caraciolo, gamer e empreendedor

Público na Campus Party Recife 4

Tulio Caraciolo, 32 anos, atua profissionalmente na área de games desde 2006 e já fundou três empresas na área. Atualmente, é Produtor Executivo nos estúdios Manifesto e BigHut Games, onde gerencia um grupo de 50 pessoas na criação de jogos para diversas audiências e plataformas. Além disso, Tulio é aluno de doutorado no Centro de Informática (CIn) da UFPE, onde desenvolve pesquisas sobre algoritmos e técnicas que permitam ajustar a dificuldade em títulos comerciais, de forma a possibilitar experiências adaptadas para cada tipo de jogador.

Na Campus Party Recife, o gamer falou sobre Game as a Service (GaaS) – um novo paradigma que permite a distribuição de jogos de forma digital – seja por download ou via transmissão (streaming). Um conceito que, ao mesmo tempo em que traz facilidades e novas possibilidades de distribuição, proporciona também debates na indústria, devido a games que são lançados com muitos bugs – que só são corrigidos através de atualizações.

Também foi abordado o conceito de freemium games – títulos que são lançados de forma gratuita, mas que pedem microtransações para que seja possível chegar mais longe ou adquirir itens exclusivos. Para engajar o público a desembolsar um valor, na visão de Tulio, é preciso investir em novos conteúdos, balanceamento constante da inteligência artificial, experiências multi-player e em fidelização dos jogadores. Este modelo veio a ser destaque a partir de 2011, quando passou a representar a maioria das vendas nas lojas da Apple e da Google. Na atualidade, embora os premium games (pagos, obrigatoriamente) sejam bastante representativos, estão mais associados às franquias mais maduras e consolidadas na indústria – algo que, na opinião de Tulio, também deve mudar. Acompanhe a entrevista.


Para as startups que vão desenvolver seu primeiro game, você recomendaria a abordagem freemium? Ou este tipo de empresa ainda não tem maturidade para promover atualizações frequentes e manter o público engajado?

Sim, o modelo freemium se aplica às startups e é o mais recomendado neste cenário. É complicadíssimo gerar um título premium (pago) que tenha renda constante – talvez no PC, mas há dificuldades. O caminho que indico é criar e disponibilizar um produto mínimo viável, medir custo e uso no decorrer do tempo com ferramentas web analíticas e ir iterando com atualizações. Como foi mencionado na apresentação, apenas 20% do esforço envolve lançar um game, em si, neste modelo.

Qual a importância do modelo Games as a Service para a indústria brasileira de jogos? Ela é a responsável pela evolução nos últimos anos?

O crescimento da indústria no país tem mais a ver com a popularização e facilidade de distribuição. Na minha visão, o Brasil precisa melhorar muito. Existem algumas iniciativas isoladas obtendo repercussão, mas ainda não há um jogo referência, que seja realmente estruturado e tenha feito grande sucesso, como alguns casos que vemos em países da Europa, por exemplo.

Um dos grandes sucessos da BigHut Games, de Tulio: Boney the Runner

Franquias mais maduras, como Assassin’s Creed e Call of Duty, devem aderir a este modelo freemium no futuro, com microtransações, ou ele estará limitado a jogos casuais?

Com certeza haverá adesão, é apenas uma questão de tempo. Jogos mais complexos, principalmente de console, por terem muito conteúdo, exigem uma largura de banda mais expressiva para download. É diferente adquirir um complemento de 100 MB, por exemplo, em um jogo mais casual em relação a transferir 1 GB de conteúdo em uma grande produção. Por isso, estas franquias ainda estão afastadas do modelo freemium, mas certamente irão aderir.

Serviços de streaming como o PS Now (vídeo abaixo), da Sony, e o GameFly, presente em TVs da Samsung, permitem que usuários paguem uma assinatura e tenham acesso a um catálogo para jogar, em transmissão direta. Você acredita neste modelo fazendo sucesso no Brasil? Será o fim dos consoles, da forma que conhecemos?

Acredito que (o streaming) vai emplacar por aqui sim, mas é algo a médio prazo, pois ainda não estamos prontos. Precisamos, primeiro, ter uma internet melhor. O crescimento da largura de banda vai permitir este modelo. Os consoles ainda têm algumas gerações pela frente, mas a mídia física deve deixar de existir logo. É só ver o que aconteceu com as indústrias de filmes e músicas. Quem ainda compra DVDs e CDs? Pouca gente. Quanto mais a banda larga evoluir, mais rápida será esta transição.


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Entrevista com Erick de Albuquerque, investidor-anjo do Porto Digital

Erick de Albuquerque

De xerocador a investidor-anjo do Porto Digital. O consultor de empresas Erick de Albuquerque, 35 anos, é figura conhecida nos bastidores do parque tecnológico e da cena local de startups. Empreendedor desde jovem, conseguiu faturar seu primeiro milhão aos 21 anos, pouco depois de trazer para o Recife uma operação de venda de refrigerante de uma fábrica do Rio de Janeiro. Já trabalhou no Sindicato dos Fazendários, na Prefeitura do Recife, montou um negócio para colocar gás natural em posto de combustível e foi presidente da empresa júnior da Faculdade Marista, onde se formou em desenvolvimento de sistemas para internet. Também fez um mestrado em administração de empresas com ênfase em estratégia empresarial pela Faculdade Getúlio Vargas em parceria com a Universidade de Ohio.

Hoje é sócio-fundador da Prima Consultoria, empresa que ajudou a criar em 2004, mas sempre arranja algum tempo para encontrar e aconselhar a nova geração de empreendedores. De estilo simples e pouco formal, ele valoriza a família, é apaixonado pelo estado e enxerga o dinheiro como um símbolo de conquista. “Nunca gostei de carro da moda nem pensava em viagens. O dinheiro era para eu provar a mim mesmo que podia mais do que eu pensava. É como ser o menino mais feio do colégio e conquistar a garota mais bonita da sala”, explica. Erick será um dos palestrantes da quarta edição da Campus Party Recife, que começa na próxima quinta-feira e vai até o domingo.


Conheci Erick quando ainda era repórter do caderno de Informática do Diario de Pernambuco. Posso estar enganado, mas acredito que o primeiro encontro foi durante a primeira ou segunda edição da Campus Party Recife. Dentro da correria que é uma cobertura deste tipo de evento, trocamos poucas palavras e recordo que ele me deu seu cartão da Prima Consultoria e mencionou ter um fundo de investimento em startups.

Por inexperiência e pela pressa em produzir as pautas programadas para o dia, a conversa não evoluiu muito. Algum tempo depois, voltamos a conversar quando fiquei sabendo do Feec, um evento que ele produzia. Mas não associei de imediato o nome à pessoa. Isso também aconteceu em outro evento, direcionado para profissionais de marketing digital. Erick estava lá como um dos organizadores e veio me cumprimentar, mas eu sequer lembrava o nome dele, embora tenha disfarçado. Para evitar uma nova gafe, decidi adicioná-lo no Facebook.

Através das redes sociais, descobri como ele era comunicativo e cheio de convicções. Mas, sobretudo, dedicava muito tempo a dar conselhos aos novos empreendedores, contando a própria história de vida e compartilhando experiências pessoais. Lembro agora de algo que ele me disse durante a entrevista. Chegou a cursar radialismo e desistiu nos primeiros períodos “porque não dava dinheiro”, mas não abandonou a ideia por completo porque gosta muito de falar.

A primeira vez que o vi falar pelos cotovelos foi em uma palestra na edição 2014 da Campus Party Recife. Lá, constatei que Erick era mais que um conselheiro ou investidor. Era um militante do empreendedorismo, capaz de dedicar horas preciosas do dia, descuidar da própria saúde e viajar para o sertão do estado apenas pelo prazer de ajudar startups que estão começando.


Como você começou a empreender?

Eu já tinha o DNA empreendedor desde os 15 anos de idade. Gostava de imprimir etiqueta, adesivo e vender essas coisas lá em casa. Era a necessidade de ganhar dinheiro junto com a energia da juventude.

O início da carreira profissional, como empregado, incomodava você?

Tive grandes decepções como empregado, mas tive muito mais aprendizados do que decepções. Trabalha no setor público e isso faz com que você crie grandes expectativas. Passei por uma fase onde a prefeitura tinha um governo populista, o de João Paulo, e queria fazer muita coisa nova. Depois, por questões políticas, você passa a ter decepções. Também trabalhava muito e não tinha realizações pessoais. Não era um problema financeiro, mas de só conseguir protagonizar aquilo que me era delegado.

Qual foi o passo seguinte como empreendedor?

Não tinha nada a ver com tecnologia, inovação ou startup. Fui ao Rio de Janeiro participar de um curso sobre tributos e, na praia, alguém me ofereceu um guaraná diferente, natural, que vinha num corpo descartável e fechado com alumínio. Falei com um amigo sobre a possibilidade de levar isso para Recife e visitei a fábrica para conversar com o dono. Tinha acabado de fazer 20 anos. Do acordo que fizemos até montar tudo foi rápido.

Como foi a conquista do primeiro milhão?

Quando eu vi, o negócio do guaraná e o do gás natural tinham faturado mais de um milhão e eu tinha apenas 21 anos. Descobri que era doente, porque em vez de comprar um apartamento, eu queria investir mais. As pessoas buscavam coisas diferentes das que eu almejava. Meus amigos tinham o desejo de trabalhar em uma grande empresa enquanto eu sonhava em descobrir uma oportunidade para ganhar um milhão de novo.

E a sua relação com o dinheiro?

Para mim o importante do dinheiro é o empoderamento. É poder comer em um restaurante bom sem me preocupar com a conta. Nunca gostei de carro nem pensava em viagens. O dinheiro era para eu me sentir desafiado e conseguir algo, provar a mim mesmo que podia mais do que eu pensava. É como ser o menino mais feio do colégio e conquistar a garota mais bonita da sala. Mas dinheiro te dá uma felicidade que é momentânea. Felicidade consolidada é composta por uma série de outras coisas que, para mim, estão no Recife, como família e amigos. Por isso não penso em sair daqui, é o meu lugar.

Você controla seus gastos?

Nunca fui um bom gestor financeiro. Gosto de ter a liberdade de comprar o que eu quiser e comer onde quiser, mas não gosto da obrigação de acompanhar o saldo do banco. Não fico monitorando a curva.


Na entrevista, Erick contou que chegou a fazer uma graduação em desenvolvimento de sistemas pela Unibratec e abandonou rápido. Ele também passou no vestibular em radialismo e desistiu. Houve uma terceira graduação que o investidor-anjo relatou ter deixado para trás: direito, na Universo. “Gretchen era da minha sala. Nunca a vi lá, mas disseram que era da minha turma”, brinca.

Segundo ele, algumas pessoas da família o pressionavam para ser médico ou advogado e seguir uma carreira “tradicional”. Mas com a mãe era diferente. “Ela só queria me ver sorrindo e feliz. Com certeza teria me bancado se eu tivesse feito escolhas erradas”, reflete. Em dado momento de nossa conversa, ele disse que amigos e família influenciam 50% das decisões de um empreendedor.

Outro ponto crucial que Erick fez questão de enfatizar foi uma espécie de desapego à formação acadêmica para poder empreender. Não que ele desvalorize isso, mas a mensagem que tentou passar é que qualquer pessoa pode chegar lá. Lembrou que quando conseguiu seu primeiro milhão, sequer tinha curso superior completo.  


Como você desenvolveu sua visão de mercado na juventude?

Para mim era Deus que me guiava. Hoje tenho certeza disso. Não tinha visão de mercado. Por tentativa e erro eu terminava acertando. Poderia ter errado, quebrado e perdido o dinheiro. Na época eu também lia muito os jornais e sempre fui impactado pelas notícias de grandes investimentos.

Como começou a investir em startups?

Em 2011, a Prima Consultoria fechou um contrato com o Porto Digital para mapear o setor de economia criativa. Acabei conhecendo a Mobiclub, startup que era incubada pelo parque tecnológico e trabalhava a ideia de um cartão de fidelidade digital. Gostei do perfil dos meninos e decidi ajudá-los, porque estavam quebrados. No primeiro ano, injetei meio milhão de reais com marketing, estrutura física e outras necessidades.

Por que é importante ter um ecossistema de startups?

As startups se ajudam mais do que se portam como concorrentes. Elas compartilham experiências e falam mais dos seus erros do que as empresas do mercado tradicional. Eu sinto que há uma indisponibilidade dessas empresas em se engajar com as startups, oferecer mentoria e participar. Os empresários de pernambuco estão vacilando em não se conectar com o ecossistema de inovação do estado. É uma grande oportunidade de acelerar os negócios, mas falta interesse. O esforço para estar conectado é mínimo, porque a galera de inovação é muito receptiva.

Por que você gosta tanto do Recife? Nunca pensou em sair daqui?

Acho que todo recifense é um pouco assim. As pessoas falam que eu gosto daqui porque sou bem sucedido, mas já provei de vários lugares. Todos os meus amigos, embora sejam poucos, estão aqui. Recife é realmente uma cidade um pouco caótica porque tem uma estrutura que não comporta as pessoas. Para driblar isso, mudei meus horários e não sinto tanto esse caos.

Sou apaixonado pelas raízes daqui. Já tive contato com outros ecossistemas e sinto que não há nada demais, exceto um PIB muito maior. Mas não tem minha mãe nem minha tia para eu comer um bolo na casa dela.

Durante anos o Nordeste concentrou mais de 50% da população pobre do Brasil. Qual é o propósito da sua vida se você pode contribuir com o ecossistema e prefere ir para a Califórnia? Eu não iria para o Vale do Silício hoje. Eu me sentiria egoísta, mas é uma opinião muito minha. É uma questão de compaixão pelo outro.


Novamente percebi no discurso de Erick um tom de militância pelo empreendedorismo. Descobri, em nossa entrevista, que ele participou de 24 edições do Startup Weekend. Ao todo, foram cerca de 1.350 horas de mentoria para jovens empreendedores. Propus que ele fizesse a seguinte conta: baseado em quanto cobra por hora de consultoria pela Prima, quanto daria esse total? Alguns toques na calculadora do celular e ele chegou ao valor: R$ 4,8 milhões. Perguntei a Erick se tinha algum arrependimento, já que nunca parou para fazer a conta. Ele garantiu que não.

“No passado, eu fui ajudado pelas pessoas. Alguém pagou um curso de informática para mim e sempre carreguei isso comigo”, revela. Futuramente, Erick se envolveria em trabalhos voluntários como na Faculdade Marista, onde ajudou a formar 1.500 jovens da comunidade de Apipucos. Embora considere o dinheiro importante, senti um grande altruísmo e sinceridade nas respostas dele.

No própria dia da entrevista, uma sexta-feira, terminamos por volta das 20h. Erick ainda ia jantar com um garoto de Natal que o estava esperando na aceleradora Jump para conhecer o empreendimento e dar algumas orientações. É como se não houvesse preocupação em descansar ou aproveitar o fim de semana.


Qual a maior vantagem e o maior problema do Porto Digital?

Eu vejo o Porto como uma plataforma muito aberta. Embora alguns digam que ele é fechado ou uma panela, sinto boa receptividade para sugestões e ideias. O maior benefício é a série de conexões que existem entre empresas, empreendedores e agentes diversos do ecossistema. No meu prédio e no edifício vizinho há mais de 30 startups. As pessoas se encontram na hora do almoço para trocar experiências. O maior gargalo é a burocracia interna, já que o Núcleo de Gestão do Porto Digital precisa dedicar boa parte do tempo à prestação de contas. É uma equipe muito boa que poderia concentrar esforços em promover o pólo de tecnologia. Algumas empresas também reclamam da área física do Porto e de dificuldades de estacionamento, mas acredito que é um problema da cidade, que não consegue responder essas demandas no tempo ideal.

Quais as características desejáveis em um empreendedor?

Você achar que porque recebe mal vai trabalhar menos ou mal é ser medíocre. Pessoas medíocres dificilmente serão empreendedoras. Quando o cara gosta de ouvir, não é tímido e é afeito a novidades, já é um bom caminho. Também é importante pensar fora do padrão e não se limitar o tempo todo por regras.

Quais os conselhos para os jovens empreendedores?

Não se pode esperar que vai ganhar muito dinheiro numa curva pequena de tempo. É uma ilusão que pode custar o tesão inicial. Talvez aconteça, mas é sorte. As pessoas se inspiram demais em casos como o de Mark Zuckerberg, que são um em um milhão. Planeje o máximo que você puder antes de empreender e saiba que ainda será pouco. Trabalhe muito, porque sem trabalho não há resultado. Se você for filho de milionários, vai trabalhar menos. Se for classe média ou pobre, precisa saber que vai trabalhar muito, bem mais que oito horas por dia. Seus amigos, namorada e família também precisam ter noção dessas coisas porque vão influenciar suas decisões. Reserve um tempo também para cuidar da sua saúde.


Em alguns momentos da entrevista, Erick deu a entender que seu ritmo acelerado já chegou a prejudicar sua saúde. No processo de aquisição do primeiro milhão, ele precisou abrir mão de “alguma receita” por conta disso. Em outro período, ficou quatro meses em uma cama de hospital, embora não tenha dado maiores detalhes. Admito que também não me aprofundei nessas razões porque ele se mostrou fechado a compartilhar algo tão pessoal. Preferi não entrar em um terreno tão delicado. Mas isso explica o conselho aos empreendedores para cuidar da saúde.

Há muitos anos, Erick dorme em torno de quatro horas por noite. No domingo consegue passar mais horas na cama, mesmo sem dormir. “Estou com minha noiva há 13 anos e ela fala que eu trabalhei em um ritmo fora do normal. Não me arrependo, mas aprendi que isso teve um custo para a minha saúde”, pondera.


Como descobrir se uma ideia é boa?

Se você tem uma ideia para empreender, tem a obrigação de conversar com um potencial cliente ou consumidor dela. Ao falar com o usuário, o ponto de vista dele vai trazer coisas que podem agregar valor. Costumo dizer que se seu produto não resolve a dor de ninguém, ele precisa ser uma modinha muito boa. Validar uma ideia não é difícil, mas é trabalhoso. Se você quer vender pipoca em um lugar, precisa ir nele e conhecer as pessoas, conversar com elas.

Qual a maior frustração de um investidor?

O time das startups. A maior parte dos empreendedores se acha muito, tem certeza de para onde o negócio deve ir, só que não consegue pagar as contas e os pais acabam sustentando. Muitas vezes as pessoas também escutam feedback, mas não mudam. Preferem quebrar a cara para depois agir. O investidor olha mais para a equipe do que para a ideia porque é bem mais difícil mudar o time do que o projeto.