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No tempo das locadoras de videogames

Quando eu tinha uns oito anos de idade e o Mega Drive III que marcou minha infância com cartuchos do Sonic não dava conta do fim de semana, havia um destino certo: Mastergames.

Localizada no bairro da Imbiribeira, no Recife, a poucos quarteirões do prédio onde morei por muitos anos, a Mastergames era exatamente aquilo que vocês já devem imaginar. Uma locadora de videogames. Mais uma daquelas categorias de estabelecimentos que teve a morte decretada com a explosão da internet no Brasil, antecipando uma tendência que iria rapidamente se repetir com locadoras de filmes.

Lembro que R$ 4 bastavam para comprar a felicidade nerd de ter, ainda que temporariamente, um jogo novo no console. Não era fácil, contudo, convencer os pais. Os meus faziam várias ressalvas. Uma delas era a proibição de alugar Mortal Kombat – vítima de um jornalismo guiado por pesquisas tendenciosas e extremamente conservadoras da época.

Outra era jogar devagar para aproveitar mais o game. A lógica era que não compensava zerar um título em duas horas porque perderia a graça da coisa e o “investimento”. Quanto mais rendesse, na cabeça deles, melhor. O problema é que nem sempre os cartuchos tinham recursos de save ou slots. Com frequência, era forçado a começar tudo de novo horas após gritos de “eu vou desligar seu videogame à força”.

O dono da Mastergames se chamava Samuel. Não sei o que aconteceu com ele, mas imagino que sinta saudade daquele período, lá pela metade da década de 1990. Deve ter sido difícil fechar as portas. Foi ele quem me ensinou, por exemplo, a passar do maldito barril do Sonic 3, assim como deu indicações de vários jogos. Também sabia decorado o meu nome de tanto que ia com meu pai lá para alugar alguma fita de videogame. Fita de videogame… Como fazia tempo que não usava essa expressão! E, eventualmente, Samuel ainda perdoava minhas multas.

Meus problemas de esquecimento vêm de longa data. Desde a infância. Era corriqueiro escolher os sábados para ir na Mastergames, pegar cartuchos e só entregar na segunda-feira. Ou na terça, quando esquecia e era cobrado pelo atraso.

O preço era por dia, mas domingo funcionava como um “bônus”, o que tornava o aluguel mais vantajoso, já que saía pelo mesmo preço do meio da semana, só que com um dia extra. A grande questão é que todo mundo sabia disso e corria para lá. Olhando por este lado, a ida na locadora poderia ser frustrante quando você descobria que os jogos mais legais já tinham sido levados por outra pessoa.

A Mastergames em si era um espaço pequeno, do tamanho de um quarto médio. A logomarca, se não me falha a memória (que já revelei ser meio ruim) era apenas o nome nas cores amarela e vermelha, em um degradê que lembrava um word art. Fugindo dos eufemismos, era tosco mesmo. Mas ninguém dava a mínima para isso. Atravessando as paredes cinzas e a pequena porta, o lado esquerdo ficava com prateleiras separadas em categorias de acordo com os consoles, com as capas dos cartuchos à mostra. No lado direito, os mesmos consoles eram jogados em arcades, com aqueles controles que lembram o Atari. Ao centro, no fundo, Samuel ficava por trás do balcão, observando o movimento. Muitas vezes peguei das mãos dele uma caixinha com cartucho do Mega Drive para, em seguida, sair correndo pela rua até chegar em casa.

Hoje percebo como a Mastergames era importante por se tratar de um ambiente mais democrático e acessível a todo tipo de público. Foi ali que muitas pessoas tiveram seu primeiro contato com uma indústria que cresce a cada ano e injeta bilhões na economia mundial. Muitas delas talvez não tivessem nem outra forma de experimentar Sonic the Hedgehog, Super Mario World, Street Fighter ou FIFA. Parece bobagem, mas para quem tem certeza do quanto esses momentos – sozinhos ou compartilhados com amigos – foram especiais, garanto que não é.

Obrigado, Samuel!

Curiosidades sobre o Museu do Videogame Itinerante

Se você é brasileiro e fã de games, já deve ter ouvido falar no Museu do Videogame Itinerante. A exposição, que é gratuita e traz mais de 200 consoles ao longo de 43 anos de história, é marcada pela interatividade com o público e roda várias cidades do país. Em abril deste ano, aportou também na capital pernambucana, onde passou uma temporada no Shopping Center Recife. Na ocasião, 40 videogames ficaram disponíveis para os gamers jogarem (com os devidos cuidados, claro).

A novidade é que ele foi escolhido para representar o Brasil no Museum Connections 2016, evento internacional que reúne milhares de profissionais de museus de vários países e acontece em janeiro, em Paris. Em 2014, ele havia sido reconhecido com uma premiação nacional concedida pelo Ministério da Cultura, que o elegeu como o museu mais criativo do país.

A agenda de 2016 ainda está sendo definida, mas o BitBlog já recebeu a informação de que o Museu do Videogame volta ao Recife em abril.

museu do videogame itinerante 2

Confira algumas curiosidades:

A ideia nasceu de um “ultimato” da esposa do curador do museu, Cleidson Lima, que não aguentava mais aquele amontoado de videogames velhos. Ela falou que ou o marido fazia daquilo um negócio ou mandava ele e os videogames para fora de casa.

Apesar da maior parte da coleção ser do próprio Cleidson, alguns itens são “emprestados” por colecionadores da cidade que recebe a exposição. Aqui no Recife, quem deu uma contribuição para deixar o museu ainda mais legal foi Esdras Serrano. O grande sonho do curador do Museu do Videogame é fazer um evento que reúna colecionadores do mundo inteiro.

Uma das maiores dificuldades de Cleidson foi praticar o desapego. Geralmente colecionadores têm muito ciúme do próprio acervo e medo de como as outras pessoas podem manuseá-lo. Felizmente, até hoje, não houve nenhum incidente.

Não é fácil repor alguns materiais quando eles quebram. Certa vez, foi preciso recorrer a um cirurgião dentista, que utilizou resina dentária para consertar o botão do controle de um console antigo.

Não se surpreenda se encontrar coisas que nem sabia que existia, como o Color TV-Game 6, primeiro console da Nintendo. Ou ainda os raríssimos Panasonic Q e o Pippin, da Apple e Bandai.

PlayStation 4, Wii U e Xbox One também estão disponíveis para os jogadores fazerem a festa. Apesar de ser um museu, a nova geração dos consoles não foi deixada de lado.

Todo o acervo é transportado em uma única carreta de 12 metros com seguro contratado de R$ 1 milhão. Dependendo do deslocamento, os consoles podem ficar até seis dias na estrada. Cleidson viaja de avião, mas acompanha o tempo todo a localização do museu itinerante através de rastreadores.

Cleidson é colecionador há dez anos. Ele também possui formação na área de TI e é jornalista. Escreve para o Uol, Olhar Digital e cobre grandes eventos do setor, como a E3. O curador do Museu do Videogame pesquisa a fundo o tema e está escrevendo um almanaque que será um grande guia para colecionadores. Além dos consoles, ele tem cerca de 6 mil jogos – e acha a quantidade pequena.

Ele possui três exemplares do primeiro videogame do mundo, o Magnavox Odyssey. Um deles foi comprado em um brechó em San Francisco por US$ 15. Cleidson fala que o mais legal de colecionar não é gastar dinheiro, mas garimpar. Ele sempre encontra um tempo nas viagens a trabalho para procurar consoles e games raros.

Coincidências do destino: Cleidson Lima nasceu em 1972, mesmo ano do lançamento do Magnavox Odyssey.

Para ele, consoles precisam ter significado e valor sentimental. Seu favorito é o Atari Supergame VG-2800, seu primeiro videogame.